Charles Hadonn Spurgeon (O Príncipe dos Pregadores) era um homem que vivia em constante comunhão com Deus e manifestava em sua vida diária o Fruto do Espírito e uma aversão por todas as formas de pecado.
Esse quadro descritivo de Spurgeon como um homem de rara santidade é inteiramente fiel. Por conseguinte, a declaração que devemos fazer agora vai parecer incoerente para muitos. Não obstante, é verdadeira, e devemos fazê-la. É que Spurgeon fumava charuto.
Quando Spurgeon começou a fumar não se sabe, mas no tempo dele se acreditava que essa prática era benéfica para a saúde. O médico de Robert Hall, o famoso pregador da igreja Batista da Rua de St. Andrew, em Cambridge, lhe havia ordenado que se tornasse fumante, e visto que Spurgeon vivia em Cambridge e freqüentava aquela Igreja em sua adolescência, sem dúvida sabia bem desse fato. Além disso, não havia nenhum escrúpulo acerca dessa prática na mente de muitos ministros da Igreja da Inglaterra, da Igreja da Escócia e das igrejas da França e da Holanda.
Claro está que Spurgeon não fazia a menor tentativa de esconder sua prática. Um repórter o descreveu quando dirigia para o Tabernáculo todas a manhãs, e seu relato foi concluído com estas palavras: “desfrutando seu charuto matinal”. Quando passeava com seus alunos certa manhã, quando alguns deles acenderam seus cachimbos ou charutos, Spurgeon disse: Vocês não tem vergonha de fumar tão cedo?, e imediatamente eles os apagaram. Depois ele mostrou um charuto e o acendeu, e tanto ele como eles riram da sua brincadeira, mas o objetivo da sua fala era que ele de modo algum se envergonhava dessa prática. É preciso salientar que ele não via nada de errado em seu hábito de fumar e que o fazia abertamente. Mas ele recebeu um súbito choque.
Em 1874, o Dr. George F. Pentecost, um pastor batista da América, visitou o Tabernáculo, e Spurgeon o convidou para sentar-se na plataforma durante o culto vespertino. Spurgeon pregou “vigorosa e objetivamente sobe a necessidade de renunciar ao pecado para obter sucesso na oração”, e falou contra os pequenos hábitos, aparentemente insignificantes, que muitos cristãos praticam e eu os mantêm fora da real comunhão com Deus.
Depois de concluir seu sermão, pediu ao Dr. Pentecost que falasse, sugerindo-lhe especialmente que aplicasse o princípio que ele havia exposto.
É provável que o Dr. Pentecost não soubesse que Spurgeon fumava. Seja como for, ele aplicou o princípio exposto por Spurgeon falando de sua própria experiência de renunciar aos charutos. Disse ele: “Uma coisa de que eu gostava muitíssimo – o melhor charuto que não podia comprar”, mas ele achou que esse hábito era mau na vida de um cristão, e lutou para vencê-lo. Todavia, o habito se mostrou tão forte que ele se viu escravizado por ele. Até que, depois de muita luta, colocou sua caixa de charutos diante do Senhor, clamou desesperadamente por ajuda, e lhe foi dada vitória completa. Com muito louvor a Deus, ele contou como tinha sido habilitado a derrotar o hábito. Através de todas as suas palavras corria a ideia de que fumar, não somente era um hábito escravizador, mas também que o cristão deve considerá-lo pecado.
Só podemos supor que, se alguma vez em sua vida Spurgeon ficou embaraçado, foi nesse momento. Ele se lamentou e declarou: “Bem meus caros amigos, vocês sabem alguns homens podem fazer para a glória de Deus o que outros homens considerariam pecado. E, apesar do que o irmão Pentecost disse, pretendo fumar meu bom charuto para a glória de Deus antes de ir para a cama esta noite… Quero dizer que não me envergonho de nada do que faço, e não acho que fumar seja motivo para eu me envergonhar, e, portanto, pretendo fumar para a glória de Deus”.
Não demorou nada para a declaração “um charuto para a glória de Deus” espalhar-se pela Inglaterra. A imprensa propagou a notícia e recebeu um batalhão de cartas, alguns desculpando a prática de Spurgeon, nas a maior parte a condenando. Ele não teve escolha senão tentar defender-se e numa carta as Daily Telegraph declarou: “Junto com centenas de irmãos em Cristo eu tenho fumado, e com eles estou sob a condenação de estar em pecado habitual, se for para dar crédito a certos acusadores. Como eu não quero viver conscientemente na menor violação da lei de Deus, e o pecado é a transgressão da lei, não reconheço que estou em pecado quando não tenho consciência disso… Quando vejo uma intensa dor aliviada, um cérebro cansado suavizado e um calmo e renovador sono obtido por um charuto, sinto-me grato a Deus, e bendigo Seu nome: é o que penso.”
Entre os diversos pronunciamentos sobre o assunto, o mais importante foi uma longa carta aberta dirigida a Spurgeon e publicada na forma de panfleto. Seu estilo era tranqüilo e sua argumentação, forte; dizia-lhe que ele não só não estava fazendo bem a sua saúde física, mas estava fazendo um dano físico por fumar. Lembrou-lhe o exemplo que ele era e mencionou o esforço que os pais cristãos faziam para manter seus filhos longe dessa pratica, só para os ouvirem dizer: “Spurgeon fuma!”
William Williams nos conta que anos mais tarde Spurgeon desistiu parcialmente de fumar, às vezes passando meses sem um charuto. É possível que esse tenha sido um esforço para provar para si mesmo e para os outros que ele não fora escravizado pelo hábito.
Conta-se que Spurgeon ao saber que a principal tabacaria da cidade passou a utilizar em sua fachada um letreiro em que se podia ler: “AQUI O SENHOR SPURGEON COMPRA OS SEUS CHARUTOS”, teria então definitivamente abandonado o seu charuto que ele tantas vezes fumou para a glória de Deus.
Extraído e adaptado do Livro “Spurgeon, Uma Nova Biografia” de Arnold A. Dallimore. Publicado pela PES. Páginas 224-229.